31 de janeiro de 2012

Desobedeça

Toda desobediência é libertária.
Desobedeça a forma, Aristóteles, Stanislawski, e também Artaud.
Desobedeça os cânones, os críticos, os jurados do prêmio de teatro, o público, desobedeça a academia.
Desobedeça a ideia mais fácil e, sobretudo, desobedeça o meu conselho.
E desobedeça você.

27 de janeiro de 2012

19 de janeiro de 2012

Eu, escravo

Eu, escravo, escrevo
Eis a minha solidão

coercitiva
forçosa
forçada

Regime auto-autoritário

Eu, escravo, escrevo
Escavo
a saída da senzala que habito
e alimento

O cárcere
é a minha norma libertária
Eu, escravo, escrevo
a minha lei Áurea.

8 de janeiro de 2012

6 de janeiro de 2012

Fúria

Não é o momento da poesia
É chegada a hora do punho fechado
do preparar do grito
Da antecedência de um estrago

E que não lhe falte nada
A cara para bater
O silêncio para romper
Ou a paz para quebrar

Que não lhe falte, enfim, a festa
E a coragem
Para explodir em meio aos convidados

Mas se tudo isso não vier
Ainda lhe restará o choro
Ainda lhe restará o desespero
E ainda lhe restará uma noite inteira
Para engolir o ímpeto e - em vão
Tentar dormir mais cedo.

31 de dezembro de 2011

Despedida

Despede-se de mim, passarim
Voa da mão, desliza
Vai com o vento, segue a brisa
E quando o local for bom
A ter risa

Despede-se também salgada gota
Despede-se num canto aqui da boca
Vai e volta outro choro
Não de tristeza, nem de saudade
Seja fé-licidade

E, por fim, despede-se ano que vai
Dá teu colo, ano que vem
Teu chão e teu consolo
Pro passarim e pro choro
E pra mim: teu fogo

O melhor na arte em 2011 (do que vi e senti)

Artes Plásticas

"Nelson Leiner 2011-1961=50 Anos"
Artista: Nelson Leirner.
Galeria de Arte do SESI - SP.

Versátil. Eis um bom adjetivo para o artista. Mas o melhor, o mais adequado, talvez seja mesmo contestador. Entretanto, Leirner discorda: "Muita gente enxerga mudanças no meu trabalho, mas eu não vejo. Não sou contestador. Arte pra mim é obsessão". Nem versátil, nem contestador. Que seja, então. Obsessivo. Assim ele é no trabalho de interrogar a arte (tanto no seu "hobby" quanto no episódio em que questionou publicamente a decisão do júri do IV Salão de Arte Moderna de Brasília, depois de terem aceitado seu porco empalhado - vejam bem, ele foi aceito). Em verdade, o adjetivo correto seria indispensável. Mas nunca se pode estar muito certo quando se fala em Nelson Leirner.

"Que horas são, dona Cândida?", 1965. Metal e madeira, 220x220cm.


Cinema

"A pele que habito (La piel que habito)"
Direção: Pedro Almodóvar.
Elenco: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet, Roberto Álamo, entre outros.

Almodóvar é um grande artista. Grandes artistas podem viver anos apenas de feitos anteriores. Mas não este espanhol. Almodóvar está vivo. Seu cinema é contemporâneo na temática e arrebatador na estrutura narrativa. Seu melodrama é sofisticadamente bem construído. Ah, as reviravoltas de suas tramas... A edição pode não ajudar no início de "A pele que habito", mas, depois, logo compreendemos que se trata de uma mera introdução, uma preparação para o que está por vir. E o que vem depois? Uma narrativa que nos surpreende e que nos prende à grande tela, que nos faz perguntar a cada nova peripécia: "O que será que vem agora?". No mais, parece haver nesse filme alguma conexão com "O segredo dos seus olhos", de Campanella. Como se um filme continuasse o outro. Duas maravilhas.



Dança

Festival Internacional VivaDança.
Idealização: Cristina Castro.
Realização: Baobá Produções Artísticas.

Há alguns anos, Salvador se abriu para os festivais de artes cênicas. E já não era sem tempo. Os festivais propiciam diálogo e reflexão, elementos fundamentais para o avanço de qualquer arte. E o VivaDança, em sua quinta edição, veio com tudo: Antonio Nóbrega, Tadashi Endo, os belíssimos solos premiados no "Internationales Solo Tanz-Theater", em Stuttgart, o "Staff", da companhia espanhola La Intrusa. Obviamente, o Festival teve também exceções, como um Ivaldo Bertazzo pouco inspirado, mas a regra foi outra. No geral, o VivaDança mostrou-nos a dança viva, mostrou-nos a criatividade de dançarinos e coreógrafos em plena comunhão com sua arte. Muitos vivas a Cristina Castro e seu VivaDança.


Música

"Chico"
Artista: Chico Buarque.
Gravadora: Biscoito Fino.

Taí outro grande artista: Chico Buarque. A estratégia para o lançamento desse álbum - como se fosse preciso alguma estratégia de marketing para lançar um CD de Chico Buarque - foi pôr o artista na internet. Os bastidores eram revelados pouco a pouco até que... Chico nos trouxe "Chico". Um título simples como o próprio álbum. Simples porque, para quem conhece um pouco da obra de Chico Buarque, é perceptível o eco de outras canções, de outros álbuns. "Sou eu" pode parecer "Deixe a menina". "Essa pequena", com suas comparações entre "eu" e "ela", lembra bem a comparação de "Ela é dançarina". E existe até uma "Sem você nº 2", em referência a "Sem você", a nº 1. Corrijo-me: não é simples. Nem um pouco. É, na verdade, simplesmente, Chico. E isso é muito.




Teatro

"Luis Antonio - Gabriela"
Cia. Mungunzá de Teatro.
A partir do argumento de Nelson Baskerville.
Intervenção dramatúrgica de Verônica Gentilin.
Direção: Nelson Baskerville.
Elenco: Marcos Felipe, Lucas Beda, Sandra Modesto, Verônica Gentilin, Virginia Iglesias e Day Porto.

Nunca. Repito. Nunca. Ênfase. Nunca. NUNCA chorei no teatro como ao assistir "Luis Antonio - Gabriela". O teatro já me fez chorar, já me encantou, me alegrou, me consolou... mas fazer-me chorar copiosamente? NUNCA! Fui sozinho ao teatro e, ao levantar para os aplausos, não conseguia controlar as lágrimas, o soluço, o tremor. Mas eu não passei vergonha. A moça da esquerda também chorava, assim como a moça da direita e eu, a moça do meio. Os atores choravam. Mas eles são atores. Tá bem que o final é uma apelação descarada, mas que bom que é assim. Transbordei. Tanto que não falarei do espetáculo. Nenhuma palavra alcança o que eu senti.